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Arraes: discurso 16 – Pátio da Usina 15/07/1998

16 - "Nós estamos lutando por uma mudança mais profunda"
(Assembléia de criação de empresa dos trabalhadores para gerir Usina Catende - Pátio da Usina 15/07/1998)


Meu amigo prefeito de Catende, demais prefeitos aqui presentes, Humberto Costa, Fernando Bezerra Coelho, meus amigos

Quero agradecer aos trabalhadores o convite que me fizeram para assistir essa histórica assembléia que vai marcar o tempo não só aqui em Catende, vai marcar o tempo na Zona da Mata de Pernambuco. Como todos sabem, desde muitos anos tenho relação direta, estreita com os trabalhadores da Zona da Mata.

Desde que fui candidato em 1962, já vão lá trinta e muitos anos, ao governo do Estado e, ao passar por Palmares, lembrei-me que, naquela oportunidade, numa concentração na histórica cidade dessa área, eu falava da situação dos trabalhadores naquele tempo e dizia que a única usina, naquele tempo, que ainda pagava salário mínimo aos trabalhadores era a Usina Pumati, o resto era a metade do salário mínimo, um terço do salário mínimo, num regime de escravidão, de discriminação contra uma centena de milhar de homens e mulheres que trabalhavam no leito da cana-de-açúcar.

Naquela época, deu-se o primeiro passo. O primeiro passo foi tirar a polícia da porta dos trabalhadores, quando assumi o governo. Polícia que secularmente, sempre estava ao lado dos proprietários, ao lado dos patrões; permitir e ajudar a organização dos trabalhadores.

E esse primeiro passo, mesmo depois que daqui saí, depois de preso e exilado, ele se manteve, com a coesão com que ficaram os trabalhadores da Zona da Mata mesmo debaixo da maior opressão em que viveu o pais nos 20 anos da ditadura militar. A força dessa unidade foi capaz de conservar os direitos. E a força da unidade dos trabalhadores é capaz de conquistar outros direitos que estão por vir, que até hoje não chegou a casa daqueles que moram nessa importante região de Pernambuco.

Temos ainda muito o que fazer pela frente e acho que agora, apesar de todas as dificuldades que está atravessando o povo e que atravessa o Estado, é a hora decisiva da Zona da Mata, a hora em que nós reconquistamos condições políticas para mudar mais ainda o quadro social e econômico desta região.

Temos que manter a nossa força, através dessa unidade dos trabalhadores de toda essa área, para impormos um avanço maior. Pois aquilo que foi conquistado em 62 era muito pouco, era o direito ao salário mínimo que já tinham há muitos e muitos anos os trabalhadores de outras partes do Brasil, de outras atividades. Nesta cidade, os trabalhadores conquistaram as condições para discutir não só o seu salário, mas para discutir os destinos da Zona da Mata, para discutir o que nós vamos fazer, como se organizar para melhorara as condições de vida da nossa gente.

Não é uma tarefa fácil, mesmo porque nós temos adversários poderosos, os mesmos que me derrubaram em 64, os mesmo que me atacam durante todo o tempo em que estou no governo, os mesmo que sabotaram e tentaram impedir o avanço dos trabalhadores aqui em Catende. Pois isso aqui, isso aqui não foi feito sem luta, não é só o apoio do governo; o apoio do governo ajuda, mas o fundamental são a consciência e a organização dos trabalhadores de Catende. Entenderam esse processo, entenderam que era preciso fazer sacrifício.

Vocês sabem que eu mesmo estive aqui duas vezes, para dizer que era preciso plantar cana mesmo sem receber nada, para que isso prosseguisse e para que nós pudéssemos sustentar a luta por mais algum tempo. Os trabalhadores entenderam e, para surpresa de todo mundo, plantaram aqui perto três mil hectares de cana sem receber um tostão, cana que lhes pertencem, cana que vai possibilitar que a nova administração que vai vir da sociedade que hoje se cria possa ter alguma coisa para tocar pra frente, alguma coisa para segura a usina, segurar os trabalhadores e permitir que haja tempo para negociação e para que possamos por em prática o plano de recuperação efetivo da Usina Catende.

Essa posição dos trabalhadores teve contra ela os nossos adversários, aqueles que querem conquistar o poder no Estado, para fazer regredir o avanço dessa luta que já vem de muito tempo, porque não é a luta de ontem, é uma luta que vem de 62, que vem de muito antes, uma luta que o povo atual de zona, através de muito sacrifício, através de muito esforço mas através de muita determinação e de capacidade de luta. Todo mundo sabe que nossos adversários lutaram na Justiça contra isso por todos os meios.

Lutaram aqui em Catende pretendendo ocupar terras que são da usina, através de maracutaia que arranjaram, mandando pistoleiros para ocupar alguns engenhos e quem os tirou de lá foram os trabalhadores cercando os engenhos, com a nossa proteção e apoio, pois era preciso fazer minar essa atitude que eles tomaram, pretendendo atemorizar os trabalhadores e a população dessa região. Eles saíram, tocaram fogo nas canas de Catende.

Quando saíram, começaram a usar outros expedientes para impedir que esse ato hoje dos trabalhadores pudesse ser feito e a Justiça pudesse chegar, como vai chegar, e transferisse o patrimônio da Usina Catende para os seus legítimos donos, aqueles que aqui trabalharam, que acumularam crédito e que podem agora fazer disso aqui uns instrumento não só para os trabalhadores diretamente empregados, mas para a população de Catende e de mais seis ou sete municípios que dependem dessa usina.

Tivemos o cuidado de, ao apoiar a ação em que três mil e tantos trabalhadores da usina foram para a Justiça. Mas o Estado assinou, como eu havia dito: é preciso que o Banco do Brasil também assine, se ele assinar, nós assinamos depois dele, é o maior credor da usina, és responsável por tudo o que se passou nessa região, pois era ele que dava dinheiro não aos trabalhadores mas aos usineiros que botaram fora uma fortuna aqui nessa usina.

O Banco do Brasil entrou e saiu, sem botar um tostão, sem botar nada, pois o governo federal não quer saber dos trabalhadores, quer saber dos ricos. E, como essa usina estava na mão da Justiça e dos pobres, ninguém botou um tostão a não ser o Estado de Pernambuco. E, para botar recursos aqui, quando botou alguns recursos aqui para sustentar as fases mais difíceis por que passava o povo da usina, eles me acusaram no Tribunal de Contas, foram à Assembléia Legislativa, fizeram um barulho na imprensa, para que eu recuasse, me atemorizasse, mas nós sustentamos o apoio a vocês, porque essa ação é uma ação que vai ser exemplar para a zona canavieira de Pernambuco.

Essa ação vai mudar a face da Zona da Mata, porque aqui tem gente que já tomou consciência de que os sacrifícios foram muitos, e vão ser muitos, mas nós estamos lutando por uma mudança não só em Catende, mas em toda região da Mata. Nós estamos lutando por uma mudança mais profunda, uma mudança no relacionamento que sempre se deu nessa zona de forma injusta, discriminatória, de forma injusta para com os trabalhadores, para com as crianças que cortavam cana, para com as mulheres obrigadas a trabalhar com seus maridos para ganhar alguns tostões por semana, para matar a sua fome.

Essa relação nós vamos mudar, vamos mudar como vocês viram dentro da lei. Dentro da lei, mas não é só a lei porque quem não cumpre a lei são eles, nós sempre cumprimos as leis, os pobres sempre se submetem às leis, eles é quem não se submetem e que podem querer passar por cima das leis e nós temos que estar preparados para essa luta dura, essa luta difícil, essa luta que vem de longe e essa luta que pode ir bastante longe.

Mas eu estou já há 50 anos nela e se Deus me der vida ainda vamos anos pra frente ajudando a todos, encorajando uma luta de transformação desse Estado que não vai se acabar amanhã, que vai exigir a cooperação, a força e a determinação da juventude de Catende, dessa área da Zona da Mata e de Pernambuco. Temos que manter a unidade, temos que manter o relacionamento com os outros setores da população.

E nós aqui sabemos que vocês mantiveram relacionamento com a população que muitas vezes ajudou os trabalhadores. Mantiveram relações com os fornecedores de cana. Mantiveram relações com todos aqueles que quiseram ajudar, com tranquilidade mas com determinação, nessa mudança mais profunda que os trabalhadores de Catende vão conquistar com esta sociedade e com outros passos que vão vir no curso desse caminho que nós...

Que há dificuldades, há. E, muitas vezes, aqueles que desanimam, é natural que desanime muita gente. Não é natural que abandonem esses caminhos, traiam às causas dos trabalhadores. Queixar, todo mundo pode se queixar. Faltar as coisas, todo mundo sabe que falta, que nada é perfeito. O que é necessário, fundamental é saber que todos nós estamos dando sustentação a essa luta, que faremos de nossa parte todo o esforço para reduzir as dificuldades, que faremos de nossa parte tudo o que for possível para que isso aqui prospere, dê certo como exemplo para o resto da Zona da Mata pernambucana.

Já me disseram que a maioria, que mais da metade, já a maioria dos trabalhadores assinaram a ata de constituição da sociedade. É preciso que todo mundo assine, é preciso que todo mundo apóie para dar uma demonstração de unidade de concordância. Se tiver alguma coisa errada, a gente conserta. Mas o que não podemos é dar sinais de divisão. Se há briga, nós brigamos entre nós, mas não diante de todo mundo, para que eles suponham que nós estamos enfraquecidos pela divisão. E, na verdade, essa união que nós vamos fazer é uma união que vai se manter por muito tempo, porque ela é necessária para os objetivos que se tem em vista.

Hoje, a situação é favorável, pois antigamente nessa zona não se tinha um prefeito com quem falar, não se tinha ninguém com quem falar. Era o isolamento dos trabalhadores, era a opressão que reinava nessa zona. Hoje, já algumas aberturas foram feitas, já temos com quem falar, como protestar, mesmo que seja de forma insipiente ainda, de forma ainda monóloga, mas já avançamos. Vivemos..

Por outro lado, as disputas entre nós começaram a desaparecer, pois existe unidade dos dirigentes dos sindicatos, existe unidade de muitos prefeitos interessados nas mudanças que estão sendo feitas. Existe, portanto, outro clima que precisar ser preservado, que precisa ser fortificado para que essa iniciativa que a Justiça haverá de consagrar possa dar os frutos que nós esperamos. O Estado de Pernambuco, o governo do Estado tem um crédito na usina, o governo do Estado poderia estar assinando, participando desde agora dessa sociedade.

Mas nós quisemos que ela fosse uma sociedade criada pelos trabalhadores, sem interferência de ninguém. Os créditos do Estado são para ajudar essa sociedade dos trabalhadores. O Estado vai se associar, de acordo com as decisões que forem dadas pela Justiça a essa iniciativa dos trabalhadores, para fortalecê-la e levar adiante essa iniciativa importante para Catende, para os municípios vizinhos e para a Zona da Mata de Pernambuco.

Eu estou confiante. Confiante no trabalho que vocês vêm fazendo. Estou confiante na unidade que vocês têm mantido. E é necessário que aqueles poucos que discordaram entendam que não há mais futuro fazer o jogo dos nossos adversários, que são os adversários do povo, que eles se integrem também nesta corrente ou serão considerados marginalizados não só pelos trabalhadores de Catende, mas pela população de Catende, que entende esse processo, que entende que ele é necessário não só para os trabalhadores que trabalham na usina, é necessário para os fornecedores de cana, necessário para os comerciantes, para todos aqueles que têm pequenos negócios nessa área, que dependem da usina e dos trabalhadores.

Vamos, portanto, manter essa luta, vamos para a frente, porque vários passos já demos, não temos que recuar, temos que avançar na dianteira de outras lutas que estão se travando na Zona da Mata.

Quero novamente agradecer o convite que me fizeram e dizer que estou à disposição dos trabalhadores de Catende, os trabalhadores da Zona da Mata.

Muito obrigado, muito boa tarde e até outro dia.

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