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Eleições 1998

 

Entrevista com Evaldo Costa:

“Aliados iam fraquejando e até Humberto Costa e Fernando Bezerra faziam agenda própria, focando em projetos futuros.”

evaldo-costaEm 1998, quando Miguel Arraes perdeu a eleição de Governador de Pernambuco para Jarbas Vasconcelos por uma impressionante vantagem de mais de um milhão de votos, muito se falou sobre o resultado daquele pleito histórico. Uns diziam que Arraes já sabia que iria perder e foi ao sacrifício apenas para manter o seu grupo político unido. Outros apontavam erros de marketing, equívocos na estratégia de campanha ou citavam o famoso “corpo mole” de aliados, que seria uma prática comum numa batalha que já teria começado perdida... Enfim, foram muitos os diagnósticos dos analistas políticos.

Nunca, porém, alguém do núcleo do comando da campanha de Miguel Arraes tinha falado tão claramente sobre particularidades daquela eleição como faz agora o jornalista Evaldo Costa, à época Secretário de Imprensa do Governo de Pernambuco e testemunha privilegiada de tudo o que ocorreu. Nessa entrevista, Evaldo admite que todos sabiam que a derrota de Arraes era praticamente inevitável, fala sobre os interesses do marqueteiro Duda Mendonça numa campanha sem perspectivas de vitória e diz que aliados usaram, sim, a campanha de Arraes para outros fins que não foram aquela disputa.

Evaldo cita, por exemplo, Humberto Costa e Fernando Bezerra Coelho, os candidatos a senador e vice, que teriam dado suas contribuições à chapa de Arraes, mas ao longo da campanha acabaram fazendo agenda própria, focados em projetos futuros. Fala, também, sobre o que representou “o sacrifício” de 1998 (que teria sido “a base sobre a qual seria assentada a campanha vitoriosa de Eduardo Campos em 2006”) e diz que, independentemente da desistência antecipada de alguns aliados, o comando da campanha nunca “jogou a toalha”. Também elogia a campanha de Jarbas: “muito agressiva, mas competente”.

arraes-01A entrevista de Evaldo Costa foi concedida ao também jornalista Marcos Cirano que acompanhou o governador-candidato durante toda a campanha eleitoral de 1998 e está preparando o livro “A Última Campanha de Arraes”. O livro de Cirano trará, inclusive, um CD com o áudio de 50 discursos daquela campanha, gravados em cima do palanque durante os comícios da Frente Popular de Pernambuco. Acompanhe, a seguir, os principais trechos da reveladora entrevista de Evaldo Costa que hoje ocupa o mesmo cargo de Secretário de Imprenso do Governo de Pernambuco:


“Havia uma campanha ultraagressiva nas ruas, no rádio, na televisão e em certos setores da imprensa. Não toda a imprensa...”

“O tom geral dos noticiários dava a campanha como decidida”

“Arraes foi candidato porque não admitiria ir para a casa sem direito a defender o seu governo, sua história de vida, seu legado.”

“Arraes sabia que sua imagem, e a imagem do governo, tinham passado por um processo meticuloso de desmonte.”

“Para Arraes, fazer a campanha era a oportunidade para deixar claro que se mantinha fiel às suas convicções”

“Era um contexto totalmente desfavorável a Arraes e todos sabíamos disso”

“As pesquisas registraram o alargamento da vantagem de Jarbas sobre Arraes na medida em que os aliados iam fraquejando e passando para o outro lado”

“O candidato a vice, Fernando Bezerra Coelho, e o candidato a senador, Humberto Costa, começaram a fazer agenda própria, reforçando a campanha de Arraes, sem dúvida, mas já focados em projetos futuros”

“Claramente Duda Mendonça entendia que eleitoralmente não haveria muito a ser feito”

“O Clima era de enfrentamento aberto. Antes da campanha, quando negociava uma antecipação de recursos da privatização da Celpe, Arraes chegou a ser tratado de forma muito descortês pelo presidente FHC”

“Arraes fez a longa travessia do deserto com dignidade e olhar estratégico. Foi por ter se submetido ao sacrifício que manteve a hegemonia no campo político e conservou a base, mínima, sobre a qual foi assentada a campanha vitoriosa de Eduardo Campos em 2006.”


1 - Qual foi a sua participação na Campanha de Arraes para o governo de Pernambuco em 1998?

EC - Eu era a secretário de imprensa e, nessa condição, participei de todas as discussões e de todo o desenrolar da campanha. Para começar, estava sempre ao lado de Dr Arraes, no Palácio, na casa do Guia Eleitoral ou viajando pelo interior. Eu coordenava a assessoria de imprensa da campanha, mediava os contatos da imprensa com ele e participava das discussões para aprovação do que ia ao ar.

2 - Nessa função, teve total proximidade com o candidato?

EC - Como disse, estava em toda parte com ele. Todo ponto de encontro era na casa dele, ou no hotel em que estivsse hospedado E o dia só terminava quando ele se retirava, alta madrugada.

3 - Foi uma campanha como tantas outras, ou foi uma campanha com dificuldades ou características específicas? Quais, por exemplo?

EC - Havia um clima diferente. Por um lado, impressionava o modo respeitoso, diria mesmo carinhoso, com que as pessoas marcavam o trato com doutor Arraes. Os eventos dele eram imensos, ele falava para dezenas de milhares de pessoas em quese todos os lugares por onde passava. Por outro lado, havia uma campanha ultraagressiva nas ruas, no rádio, na televisão e em certos setores da imprensa. Não toda a imprensa. Lembro que a grande maioria dos profissionais de imprensa, especialemtne os repórteres que cobriam o governo e campanha, davam um tratamento justo a ele e à campanha. A palavra de Dr Arraes era muito respeitada. O que ele dizia, saía. Não recordo de nenhuma retificação que tivesse sido forçado a pedir. Mas era evidente que o tom geral dos noticiários dava a campanha como decidida. Assim, era como se houvessem duas dimensões separadas, os lugares onde estávamos e Dr Arraes era aplaudido, admirado, festejado, e o resto do mundo que cantava a vitória de Jarbas. Era confortável circular no "nosso" mundo e duro demais encarar o ambiente geral.

4 - É verdade que Arraes só aceitou disputar a reeleição porque não havia outro nome competitivo nas esquerdas, na Frente Popular?

EC - Não, doutor Arraes foi candidato porque não admitiria, em nenhuma hipótese, ir para a casa não apenas derrotado politicamente, mas sem direito a defender o seu governo, sua história de vida, seu legado. Para ele, seria como se concordasse com tudo o que a oposição dizia dele no Diario de Pernambuco, por exemplo. Ele sabia que a desvantagem era imensa. Sabia que sua imagem, e a imagem do governo, tinham passado por processo meticuloso de desmonte. Ele tinha perfeita noção de que tudo o que ele considerava importante passara a significar atraso E não se conformava com isso. Fazer a campanha era a oportunidade para deixar claro que se mantinha fiel às suas convicções. Ele redigia pessoalmente suas falas para o guia eleitoral, que tinha como carro chefe programas de governo como eletrificação rural, microcrédito, farmácia popular etc. Acho que ele ficaria feliz hoje ao constatar que o que era atraso em 1998 agora é moderno. O microcrédito da vaca na corda e da bomba dágua deu dois Prêmios Nobel na Ásia.

5 - Na época, todos nós sabíamos que nunca um governador de Pernambuco havia conseguido se reeleger. Isso foi levado em conta antes do lançamento da campanha?

EC - Na verdade, aquela era a primeira vez em que se admitia a reeleição. Não devemos esquecer que as regras daquele pleito - inclusive com a possibilidade de renovação de mandatos executivos - foram criadas pelas forças políticas hegemônicas na ocasião a partir de uma leitura extremante pragmática da conjuntura. Aliás, como sempre acontece no Brasil, país que tem um sistema de captação de voto moderníssimo convivendo com a legislação eleitoral mais casuística do mundo. Aqui as regras eleitorais são elaboradas e implementadas de acordo com a estratégia de quem detém a hegemonia no Congresso. Naquela época, a hegemonia neoliberal, em escala global, permitira a presidentes como Menen, Fujimori e Fernando Henrique mexer nas constituições para se reeleger uma e até duas vezes. Era, portanto, um contexto totalmente desfavorável a Arraes e todos sabíamos disso.

fbc-humberto6 - O que diziam as pesquisas internas, na época, sobre prováveis desfechos daquela eleição?

EC - As pesquisas internas diziam o que diziam as externas e registraram o alargamento da vantagem de Jarbas sobre Arraes na medida em que os aliados iam fraquejando e passando para o outro lado. Isso acontecia com prefeitos, candidatos a deputados e afetava até mesmo o ritmo da campanha majoritária, na medida em que o candidato a vice, Fernando Bezerra Coelho, e o candidato a senador, Humberto Costa, começaram a fazer agenda própria, reforçando a campanha de Arraes, sem dúvida, mas já focados em projetos futuros.

7 - É verdade que o marqueteiro Duda Mendoça, numa reunião no Recife, disse a Arraes que, de acordo com as pesquisas, a disputa estava perdida e Arraes respondeu: “Há eleições que a gente ganha eleitoralmente e perde políticamente. E há eleições que a gente perde eleitoralmente, mas ganha politicamente.”?

EC - A primeira reunião com Duda Mendonça começou com a leitura de uma pesquisa quantitativa, do Vox Populi, que mostrava o quadro extremamente desfavorável em que aconteceria a campanha, mas que não apontava ainda a derrota na dimensão que viu. Ele queria trabalhar com Arraes. Ele tinha a imagem vinculada demais à imagem de Maluf. Em grandes centros urbanos, principalmente São Paulo, cuja mídia elabora o entendimento médio da população brasileira, sua figura era demonizada. Era tido como o homem que convencia os eleitores incultos a votar errado. Ligar-se a Arraes daria a ele um upgrade de imagem, repaginá-lo com cores de progressista, esquerdista, e foi nesse caminho que chegou a ser o marqueteiro de Lula. Por isso, ele teve, pelo menos no primeiro momento, uma atenção especial pelo projeto. Depois, como fazia simultaneamente dez a doze campanhas, a de Arraes foi ficando de lado. Claramente Duda entendia que eleitoralmente não haveria muito a ser feito. E claramente Arraes persistia buscando a vitória política que considerava viável.

8 - Em alguns comícios, Arraes se queixou de que Pernambuco vinha sendo discriminado pelo Governo Federal e afirmou que podia até perder as eleições, mas não abriria mão dos seus princípios. Arraes usava a frase: “Ao longo da História, Pernambuco nunca se curvou aos caprichos de quem quer que seja e não é dessa vez que vai se curvar”. Daí, a pergunta: Qual foi, mesmo, o clima, o comportamento do Governo Federal diante da candidatura de Arraes?

eduardoEC - O Clima era de enfrentamento aberto. Antes da campanha, quando negociava uma antecipação de recursos no contexto da privatização da Celpe, Arraes chegou a ser tratado de forma muito descortês pelo presidente Fernando Henrique Cardoso. Houve uma ocasião em que, como último recurso, o governador pediu uma audiência ao presidente que julgara amigo em certa época. Foi recebido com o vice-presidente Marco Maciel na sala, o que significava, na prática, o impedimento para avançar em qualquer pleito, considerando que a oposição pernambucana declarava publicamente ser contra a liberação de qualquer recurso para o estado, numa estratégia para garrotear o governo. Lembro da inauguração de Jucazinho e do ambiente que se formou no palanque montado em Surubim. Na verdade, era um comício da oposição, com milhares de pessoas trazidas para aplaudir jarbas, Maciel, Toni Gel e FHC e vaiar Arraes. Ele nunca se intimidou. Cumpriu o protocolo nos mínimos detalhes, indo inclusive à Base Aérea receber a comitiva presidencial acompanhado somente por um ajudante de ordens e por mim. Entendia a correlação de forças e entendia que tinha um papel a cumprir, uma posição a defender, uma bandeira que não poderia largar. Derrotado, fez a longa travessia do deserto com dignidade e olhar estratégico. Foi por ter se submetido ao sacrifício que manteve a hegemonia no campo político e conservou a base, mínima, sobre a qual foi assentada a campanha vitoriosa de Eduardo Campos em 2006. A história é a única ciência que se expressa com ironia: ninguém naquele palanque de Surubim imaginaria que Jarbas seria sucedido no Palácio do Campo das Princesas por Eduardo Campos...

9 - Você acha que o comportamento da mídia local, sobretudo da imprensa, foi o que a gente poderia chamar de isento ou houve uma preferência pelo nome de Jarbas?

jarbas-01EC - É histórico que o Diário de Pernambuco bateu muito duro no governo. Mas não acho que a imprensa tenha tido papel decisivo. Os meios de comunicação reproduzem o senso comum. Reforçam, sublinham, ressaltam, mas são apenas uma parte do processo. Havia problemas políticos na aliança e havia problemas na imagem do governo, dos quais o mais grave era a exploração política do chamado escândalo dos precatórios. Jarbas fez uma campanha muito agressiva, mas competente, iniciada com larga antecedência. A equipe do guia eleitoral começou a trabalhar em 1996! Tinha forte apoio empresarial, inclusive do empresariado da comunicação. Quando se lançou candidato, com uma aliança fortemente lincada com a campanha de reeleição de Fernando Henrique já era tido como imbatível, Sabemos todos que no Brasil expectativa de vitória é fermento de campanha. Tudo isso combinado só poderia dar no que deu.

10 - Em que momento da campanha a toalha foi jogada? Antes de acabar o prazo legal de campanha ou até o último momento havia perspectivas de vitória?

EC - Acho que quem estava no núcleo duro da campanha procurava não pensar muito nisso. Talvez houvesse alguma crença messiânica no mito Arraes. Talvez aqui e ali fôssemos acalentados com a visão onírica de que Arraes era Arraes, o homem que só poderia ser vencido pelas armas. E que o povo jamais o abandonaria. Não sei. Prefiro lembrar que no dia seguinte à eleição, com os jornais cantando o fim de uma era e a morte do arraesismo, um pequeno grupo se reuniu no terraço da casa dele em Casa Forte. Estavam lá Eduardo Campos, Dilton da Conti, o filho José Almino, Dona Madalena e algumas outras pessoas. E eu fiquei espantado ao perceber que todas as falas daquele homem de 84 anos, esmagadoramente derrotado, eram pontuadas por frases como "precisamos fazer isso agora, porque se não, daqui a pouco..." Ou "precisamos agir, porque do contrário, daqui a dois, três anos..." Ou seja, ele continuava pensando estrategicamente, olhando para a frente, mantendo viva a chama da política e o desejo de construir novos projetos. Pra mim, esta foi a maior lição daquela campanha.

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