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Crime dos Vieira de Melo

Sentada no centro da sala, a jovem mulher é obrigada a tomar uma dose de veneno, misturada a um copo de caldo de galinha. Passam-se cinco, dez, vinte minutos e ela permanece viva, como se nada lhe tivesse acontecido. Os assassinos ficam assustados e providenciam um outro tipo de veneno, agora de poder devastador. Mas a segunda dose também não faz efeito e os criminosos começam a se apavorar.

Eles decidem, então, mandar buscar um barbeiro para fazer uma sangria, ou seja, cortar com uma navalha as veias do pescoço da vítima. Mas o sangue que escorre dessa sinistra intervenção é pouco e a mulher continua viva. A tensão aumenta. Como estava desde o início, a mulher não pronuncia uma única palavra. Por fim, e ali mesmo na sala, os criminosos lançam mão de uma toalha e asfixiam a vítima. Pronto: estava, assim, consumada a vingança.

A história resumida acima não é invenção de novela barata nem aconteceu numa pequena comunidade interiorana, onde os crimes por vingança são marcados por requintes de crueldade. O episódio teve como local a luxuosa casa grande do Engenho Pindobas, em Ipojuca, de propriedade de Bernardo Vieira de Melo, capitão-mor de Igarassu, cavalheiro Fidalgo da Casa Real, governador da capitania do Rio Grande do Norte, herói das lutas contra Zumbi e da Guerra dos Mascates.

A vítima foi a jovem Ana de Faria Souza, que era esposa de André Vieira de Melo, filho de Bernardo Vieira. A data: 1710, época em que os mascates, como eram chamados os comerciantes recifenses, lutavam contra os nobres de Olinda que era a capital de Pernambuco. Embora decadente, a burguesia olindense não queria que os comerciantes fundassem a Vila do Recife.

E os autores do monstruoso crime? Também nunca constituiu nenhum segredo: foram o próprio marido de Ana, André, e a mãe dele, Dona Catarina Leitão, a temida mulher do nosso herói Bernardo Vieira de Melo que costumava chamar os mascates de malcriados e ingratíssimos.

Na época, o crime teve grande repercussão, mas nada aconteceu aos seus autores que eram poderosos. Apenas o povo e alguns padres ficaram indignados. Não só pelos requintes de pervesidade dos assassinos, como também pelo motivo da execução: uma vaga suspeita, jamais comprovada, de que Ana de Faria andava de amores com João Paes Barreto, proprietário do Engenho Velho, localizado no município do Cabo.

A suspeita já era o suficiente para "manchar a honra" dos Vieira de Melo e ficou decidido, em família, que o casal de supostos amantes deveria ser eliminado.

O primeiro a morrer foi João Paes Barreto. Aconteceu no dia 23 de maio de 1710, quando ele chegava ao seu engenho, no Cabo, e, antes de entrar em casa, caiu alvejado por três tiros. O autor dos disparos foi André Vieira de Melo, o marido suspostamente traído que, no dia seguinte, vestido impecavelmente, vai a Olinda anunciar de público parte da sua vingança.

André disse mais: comunicou que o seu próximo passo seria eliminar a propria esposa para, desta forma, completar a tarefa de reparar a honra ofendida da família. Mas, como a esposa de André estava grávida, os Vieira de Melo decidiram que ela só deveria ser assassinada após o nascimento da criança.

E foi essa espera pela morte anunciada de Ana de Faria que causou indignação entre o povo de Olinda e Recife que acreditava na sua inocência mas não tinha poderes para mudar o rumo dos acontecimentos.

Uma das raras intervenções em favor de Ana partiu do padre José Sipriano. Ele apelou ao bispo Dom Manoel Álvares da Costa para que intercedesse junto a Bernardo Vieira de Melo em favor da jovem mulher. Mas o pedido do padre foi em vão. Até porque o bispo parecia interessado, mesmo, era no desfecho da batalha entre olindenses e recifenses.

Tanto que, depois que o governador Sebastião de Castro e Caldas sofreu atentado à bala e fugiu para a Bahia, o bispo assumiu o governo de Pernambuco, tomando posse dia 15 de novembro de 1710.

A briga entre as duas cidades envolvia muita riqueza e poder, pois o Recife, apesar de simples povoação, já era considerada a mais importante praça de comércio do Norte do Brasil e não queria mais ficar dependendo de Olinda. No meio de uma confusão desse porte, dizia o povo na época, o bispo não teve tempo nem de rezar pela alma da assassinada.

Ana de Faria Souza foi enterrada no Convento de São Francisco, em Ipojuca, e sua história ficou na boca do povo, foi tema de inúmeros versos populares. Espalhou-se até a crenca de que ela era santa e de que quem tocasse a pedra do seu túmulo seria curado: os cegos passavam a enxergar, os paralíticos andavam etc.

Correu, inclusive, o boato de que, em duas ocasiões a selputura foi aberta e o corpo da jovem mulher assassinada estava intacto, a morta parecia dormir. No plano real, os defensores de Ana só lavariam o peito em 1712: por conta de sua atuação na Guerra dos Mascates (da qual a vila do Recife saiu vitoriosa), Bernardo Vieira de Melo foi condenado e enviado, junto com o filho André, para uma prisão em Portugal, onde os dois morreriam. Já a temida Dona Catarina Leitão, dizem, morreu aqui mesmo em Pernambuco, berrando asfixiada de asma.

Para o historiador Viriato Correia, toda essa história patrocinada pelos Vieira de Melo representou "um dos crimes mais arripiantes a que o Norte do Brasil assistiu na fase setecentista".

Para nós que, com razão, nos indignamos com a violência atual das grandes cidades, crimes como este mostram que os atos de selvageria não são particularidades dos dias de hoje nem estão restritos a ambientes miseravelmente pobres da periferia. Eles também estão presentes nas rodas mais elegantes do poder e fazem parte da nossa História.

Neste último caso, infelizmente, muitas vezes acompanhados da impunidade. O trágico fim de Ana de Faria Souza mostra, ainda, um fato incontestável: o de que a violência contra a mulher começa, mesmo, em casa.

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