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João Cabral de Melo Neto

joao cabralO autor de natal Morte e Vida Severina, de João Cabral de Melo Neto, é a obra mais divulgada do poeta pernambucano. Por isso mesmo, já foi interpretada por uma infinidade de críticos. Aqui, quem analisa forma e conteúdo de Morte e Vida...é o próprio autor, morto em 1999 quando era considerado "o maior poeta brasileiro vivo". As opiniões foram extraídas de depoimentos e entrevistas que Cabral concedeu à imprensa e ao Museu da Imagem e do Som de Pernambuco.

P - Como o senhor encara a relação forma e conteúdo na poesia?

R - Eu tenho a impressão de que o poeta que fica é o que trouxe forma nova. Muita gente escreveu sobre Pernambuco, sobre coisas que eu escrevi e que vocês nem sabe o que é. Nem se fala mais. O que acontece é que eu inventei, adaptando de poetas anteriores a mim, um estilo próprio. Quando você lê um artista, não exatamente para saber a situação no sertão. A forma de dizer a coisa é que interessa o leitor. Pode ser um tipo de deformação formalista, mas é minha impressão. Vocês devem ficar surpreendido com essa minha preocupação formalista quando eu sou um dos sujeitos que escreve sobre coisas concretas da vida brasileira. A verdade é essa. Não escrevi sobre Pernambuco com outra preocupação que não fosse a formalista. Eu quis fazer um determinado tipo de poesia, e para isso eu tinha que utilizar alguns assuntos. E eu só podia usar os assuntos que marcaram minha vida. Agora, o fato de eu ser lido não é porque eu falo de Pernambuco, não. Mas, sim porque, talvez, eu tenha conseguido um tipo de linguagem, de abordagem, de imagem e forma do assunto que despertou interesse.

Eu acho que toda arte é forma. Ela não é essencialmente forma, mas a forma é o ponto de partida. Pra você captar a vida moderna tem que inovar na forma. Primeiro vem a realidade, depois a maneira de captá-la. Você só tem dentro da cabeça aquilo que entrou através de alguma experiência. Pensar que a arte vai antecipar, vai fazer uma revolução, não é correto. A arte não vai fazer revolução nenhuma.

P - E qual a atualidade de Morte e Vida Severina?

R - Eu saí do Recife em 1942. Eu fiz aquilo contando minha experiência de Pernambuco até 1942. Portanto, se eu disser que tudo aquilo ainda está na mesma situação, eu seria desonesto. Sob o ponto de vista da forma, os meus livros mais novos são bem mais acabados. Eu acho "Morte e Vida Severina" um poema onde procurei falar mais direto, de uma maneira menos hermética. Mas eu ainda não tinha dominado bem esse estilo. Por isso, eu acho esse poema com uma textura (não a estrutura) mal acabada. Tem muito verso que eu gostaria de corrigir. Mas o lado social não posso...

Me perguntaram se eu escreveria aquilo hoje. Não sei. Eu escrevi "Morte e Vida Severina" porque me encomendaram. Maria Clara Machado me pediu para fazer um auto de natal. Então, eu me lembrei que no "Folklore Pernambucano", de Pereira da Costa, havia anotações de uns autos de natal que existiram em Pernambuco no século passado (XIX). Apenas eu mudei o conteúdo, conservando a estrutura, e adaptando uma realidade local. Na parte final, usei o tema eterno da literatura do Nordeste: o sujeito emigrado lá do sertão para vir procurar uma vida melhor para os lados do Recife. Agora, isso não está em mim. Isso já está em "Luzia Homem", em Rachel de Queiroz, em José Américo de Almeida e em Graciliano Ramos. Já está em todo o romance do Nordeste.

Essa foi a única experiência minha com o folclore. Eu não o conheço bem. Eu conheço um folclore vivo, que eu vi. Esses livrinhos de folheto de cordel, eu li desde moço. Eu me lembro que eu menino de engenho, os empregados do engenho de papai, em Moreno, vinham para mim e diziam: - João, lê esse folheto para mim. Essa influência eu tive na infância. Não sou um folclorista.


P - O senhor mesmo diz que Morte e Vida Severina não é sua melhor obra. Por que, então, foi a que fez mais sucesso?

R - Esse êxito não foi por causa do texto, esse êxito foi por causa da mise-en-scêne do TUCA (Teatro da Universidade Católica de São Paulo) que é genial; da música do Chico que é muito boa, inclusive a música respeitou muito o verso, tá compreendendo? E um pouco também por causa da situação política, não é? Uma poesia de estudante, o estudante de hoje está disposto a brigar, não é?...

Muita gente pensa que "Morte e Vida Severina" é um poema adaptado pra teatro, mas não é. É uma peça de teatro desadaptada pro teatro. Porque a Maria Clara Machado me pediu aquilo, eu escrevi e depois ela não quis levar. Nisso, veio o Olímpio me pedir para publicar "Duas Águas" que foi o primeiro volume de poesias completas minhas, saiu em 1956, e quando eu fui reunir, havia pouca coisa. Então eu digo: puxa, eu tenho mil e duzentos e tantos versos aqui, ou mil e quatrocentos, não seu quantos são, eu vou engrossar o livro.

Agora, como eu acho a tipografia da peça de teatro muito feia, aquele negócio entra fulano, sai fulano, dá um murro em beltrano... compreende?... tira o cachimbo... esse tipo de marcação muito feia tipograficamente, então suprimi todo esse tipo de marcação na tipografia do poema. Tanto que eu não digo quem está falando e ponho o traço indicando quando a pessoa fala e pus um mínimo de marcação no alto de cada cena, como se fosse título do capítulo. Eu poderia ter publicado como escrevi originalmente, quer dizer, com parênteses: "fulano", "mulher da janela", "retirante", compreende? Mas eu acho que não, que o sujeito lendo já sabe perfeitamente quando é a "mulher da janela" que fala, quando é o "retirante" que fala, quando é o "Carpina" que fala... Eu vi que isso não é necessário. Se você disser no título "Encontrou Uma Mulher na Janela e Começou a Conversar com Ela", você já sabe que aquele diálogo é entre ele e a "Mulher da janela".


Biografia

Poeta e diplomata, João Cabral de Melo Neto nasceu no Recife, a 09 de janeiro de 1920, de uma família proprietária de engenho de açúcar, onde viveu parte da infância: "me eduquei no Recife, mas não posso me considerar um homem urbano, o campo sempre estava presente na minha vida". Pelo lado paterno, é o quarto neto de Antônio Moraes e Silva, o Moraes do dicionário, e primo de Manuel Bandeira e Mauro Mota. Pelo lado materno, é primo de Gilberto Freyre e do historiador José Antônio Gonçalves de Melo. Os engenhos do seu tempo de menino foram Poço do Aleixo, no município de São Lourenço da Mata; Pacoval e Dois Irmãos, município de Moreno.

Considerado um dos maiores poetas brasileiros contemporâneos, João Cabral estudou o curso colegial no Recife com os Irmãos Maristas. Primeiro, no Colégio Ponte d'Uchoa e depois no colégio situado à Avenida Conde da Boa Vista. Não freqüentou nenhum curso superior e dizia considerar equivalente a uma faculdade tudo o que aprendeu com os amigos intelectuais como o poeta e engenheiro pernambucano Joaquim Cardozo e outros. Enquanto viveu no Recife, trabalhou numa companhia de seguros; na Associação Comercial de Pernambuco e também no Departamento de Estatística do Estado.

Visitou o Rio de Janeiro pela primeira vez durante o carnaval de 1940, retornando em seguida ao Recife. Em novembro de 1942, muda-se definitivamente para o Rio, onde, no ano seguinte, presta concurso e começa trabalhar como funcionário público, ocupando o cargo de assistente de seleção do DASP. Começou a escrever poesias aos 17 anos de idade e estreou na literatura com a publicação do livro "Pedra do Sono", em 1942. Em 1945, publica "O Engenheiro". Naquele mesmo ano, é aprovado em concurso para carreira diplomática e, em 1947, deixa o Brasil, iniciando uma vida profissional que só largaria ao se aposentar.

Como diplomata, o primeiro cargo que João Cabral de Melo Neto ocupou foi o de vice-consul do Brasil em Barcelona, Espanha, onde permaneceu de 1947 a 1950 e onde depois voltaria a trabalhar mais outras seis vezes. Da Espanha, ele seguiu para Londres, onde serviu de 1950 a meados de 1952. Trabalhou, ainda, na França e Estados Unidos. Promovido a embaixador em 1976, foi nosso representante no Senegal até 1979, quando passou a representar o Brasil no Equador, onde ficou até 1981, seguindo depois para Honduras. Aposentou-se do Itamaraty em 1987 e voltou a morar em seu apartamento no Rio de Janeiro.

Além dos vários países onde serviu como diplomata, João Cabral viveu também em Brasília, durante o Governo Jânio Quadros, trabalhando como chefe de gabinete do Ministro da Agricultura. Casou-se no Rio de Janeiro, em 1946, com Stella Maria Barbosa de Oliveira, com quem teve cinco filhos. Em 1968, foi eleito por unanimidade para a Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira que pertenceu a Assis Chateaubriand. Seu poema mais popular é "Morte e Vida Severina" (auto de natal pernambucano), publicado em 1965 e, depois, adaptado para o teatro e televisão, com música do compositor Chico Buarque de Holanda.

Quando adolescente, João Cabral foi atleta, atuando como jogador de futebol pelo América do Recife e pelo Santa Cruz e chegou a ser campeão estadual (juvenil) por este último. A partir de 1992, passa a sofrer de cegueira progressiva e não pode mais ler. Em 1994, lança o livro "Obras Completas". Tímido e assumidamente preguiçoso, ele assim se definia: "Sou uma pessoa que se considera preguiçosa por natureza. Sou um sujeito tímido, que morre de vergonha quando é reconhecido, e que também não gosta de ser chamado de poeta, como se fosse uma denominação profissional. Detesto quem me escreve cartas me chamando de Poeta João Cabral".

Quanto à temática, a crítica divide a obra de João Cabral de Melo Neto (e ele concordava) em duas fases: a primeira, sem preocupação com o social; a segunda, quando esse interesse começa a surgir. Nessa segunda fase, que se inicia em 1950, está presente o Nordeste dramático das secas, do latifúndio, das migrações do sertanejo para as zonas da Mata e Litoral, além do Rio Capibaribe.

Morreu a 09 de outubro de 1999, já cego, em seu apartamento no Rio de Janeiro, de insuficiência respiratória, quando rezava ao lado de sua segunda mulher, Marly de Oliveira. Entre suas principais obras, estão: "Psicologia da Composição" (1947); "O Cão sem Plumas" (1950); "O Rio" 91954); "Morte e Vida Severina" (1954); "Quaderna" (1959); "Dois Parlamentos" (1960); "Educação pela Pedra" (1965).

Obras Completas

"A Pedra do Sono" (1942), "O Engenheiro" (1945), "Psicologia da Composição" (1947), "O Cão sem Plumas" (1950), "O Rio" (1954), "Morte e Vida Severina" (1956), "Uma Faca só Lâmina" (1956), "Quaderna" (1959), "Dois Parlamentos" (1960), "Terceira Feira" (1961), "A Educação pela Pedra" (1966), "Museu de Tudo" (1975), "A Escola das Facas" (1980), "Poesia Crítica" (1982), "Auto do Frade" (1984), "Antologia Poética" (1997, 2 vols., sendo que o vol. 1 reúne desde "A Pedra do Sono" até "Serial" e o vol. 2 traz os poemas de "A Educação pela Pedra" até o último livro de Cabral, "Andando Sevilha").

Opinião de João Cabral sobre

Política - "Não gosto desta moda de qualquer pessoa razoavelmente conhecida sair opinando sobre a crise econômica, o momento político ou o que seja. Também não acho que falar sobre estas coisas seja atribuição dos cientistas políticos, porque eu nem mesmo acredito em ciência política. Quando me perguntam, digo que o País vive uma crise, mas que não devemos nos desesperar nem nos alarmar."

Partidos - "Nas eleições, os partidos são punidos ou premiados de acordo com as esperanças que criam, o que faz com que numa ocasião, um deles ganhe de forma categórica, e em outra, saia derrotado."

Noite - "Eu não gosto da noite. A noite me deprime."

Diplomata - "A carreira de diplomata me abriu horizontes para outras culturas."

Fama de maior poeta brasileiro - "Prefiro o anonimato a essa glória de que falam. Gosto de andar por cidades em que entro e saio de lugares sendo um desconhecido. Quanto a ser o poeta número um, digo que é uma afirmação que não me comove. O que eu quero de verdade é ser um poeta de Pernambuco."


Trecho de "Morte e Vida Severina", musicado por Chico Buarque Holanda e encenado pela primeira vez pelo Teatro da Universidade Católica de São Paulo, na década de 1960. Primeira cena - Apresentação do retirante:

O meu nome é Severino,
não tenho outro de pia.
Como há muitos Severinos,
que é santo de romaria,
deram então de me chamar
Severino de Maria;
como há muitos Severinos
com mães chamadas Maria,
fiquei sendo o da Maria
do finado Zacarias.
Mas isso ainda diz pouco:
há muitos na freguesia,
por causa de um coronel
que se chamou Zacarias
e que foi o mais antigo
senhor desta sesmaria.
Como então dizer quem fala
ora a Vossas Senhorias?
Vejamos: é o Severino
da Maria do Zacarias,
lá da serra da Costela,
limites da Paraíba.
Mas isso ainda diz pouco:
se ao menos mais cinco havia
como nome de Severino
filhos de tantas Marias
mulheres de outros tantos,
já finados, Zacarias,
vivendo na mesma serra
magra e ossuda em que eu vivia.
Somos muitos Severinos
iguais em tudo na vida:
na mesma cabeça grande
que a custo é que se equilibra,
no mesmo ventre crescido
sobre as mesmas pernas finas,
e iguais também porque o sangue
que usamos tem pouca tinta.
E se somos severinos
iguais em tudo na vida,
morremos de morte igual,
mesma morte severina:
que é a morte de que se morre
de velhice antes dos trinta,
de emboscada antes dos vinte,
de fome um pouco por dia
(de fraqueza e de doença
é que a morte severina
ataca em qualquer idade,
e até gente não nascida).
Somos muitos Severinos
iguais em tudo e na sina:
a de abrandar estas pedras
suando-se muito em cima,
a de tentar despertar
terra sempre mais extinta,
a de querer arrancar
algum roçado da cinza.
Mas, para que me conheçam
melhor Vossas Senhorias
e melhor possam seguir
a história de minha vida,
passo a ser o Severino
que em vossa presença emigra.

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