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De amor e de sexo: a palavra do escritor Hermilo Borba Filho

Pernambucano de Palmares, Hermilo Borba Filho foi um dos romancistas e dramaturgos mais conceituados na vida cultural brasileira. Ao morrer, aos 59 anos, dia 02 de junho de 1976, deixou uma obra composta por 28 livros, entre peças teatrais, romances e ensaios, muitos deles editados também em outros vários países.

Hermilo foi, ainda, professor de História da Arte, dirigente de vários organismos de cultura e fundador de movimentos culturais. Enfim, era um intelectual. Por sua incansável luta em favor da liberdade, enfrentou problemas com a censura e ficou conhecido como "escritor maldito". Mas em nenhum momento perdeu o bom humor.

Se havia uma coisa que irritava Hermilo, esta era, sem dúvida, o falso moralismo, a hipocrisia. Tanto que, nas inúmeras entrevistas que concedeu à imprensa brasileira, ele fazia questão de ser, ao mesmo tempo, erudito e desbocado. Ele dizia: "Eu sou um sujeito meio safadoso, não ligo a mínima para convenções".

A entrevista que se segue é uma síntese do que Hermilo falou, em vida, sobre sexo e amor, temas constantes de sua obra. É uma garimpagem do pensamento do escritor, extraída das centenas de entrevistas que ele concedeu a revistas e jornais brasileiros, a maioria publicada e alguns trechos inéditos por conta da censura.

É a fala de Hermilo bem ao seu gosto: sem falso moralismo.

PE-AZ - De amor também se morre?

HBF - De amor só se morre violentamente: emparedado, envenenado, apunhalado, baleado. Mas quem ama tem de correr risco. Todo amor é perigoso. A não ser que se siga a fórmula de um médico amigo meu: "O de que eu mais gosto mesmo é de mulher de aleijado". Porque não pode reagir.

PE-AZ - Há coisa melhor do que mulher e dinheiro?

HBF - Duvido. Só se for a luta pela santidade.

PE-AZ - Admite a traição na mulher?

HBF - Na dos outros.

PE-AZ - E os livros eróticos?

HBF - Os livros eróticos estão para os adultos como as estórias de fada estão para as crianças. Quem disser que detesta sexo é um doente. Intimamente todos devoram os livros que abordam o sexo com honestidade (há também os adoradores do sexo desonesto. E que tem?). Eu prefiro ficar com uma ilustre dama francesa do Século XVIII, que tinha pretensões de escritora, e que dizia com muito charme: "A única inconveniência de ser ler um livro erótico é que a gente só pode segurá-lo com uma mão".

PE-AZ - E o homossexualismo?

HBF - Tive todas as oportunidades para ser bicha: doze anos mais moço que meu irmão mais moço, mamando até os quatro anos de idade, longos cabelos louros, roupinha de marinheiro, dormindo na cama dos meus pais, era um campo aberto. Só que, entre outros, eu tinha dois irmãos machos pra burro: Luís e Ruy. O primeiro, atleta, levantava 80 quilos com um braço, 120 de ponte, jogou-me no mundo da força bruta mal eu completara os sete anos e me cortaram os cabelos e me proibiram de dormir na cama de mamãe. Eu levantava marombas, fazia exercícios de barra, atravessava o rio Una a nado, entregava-se à luta-romana, ouvia deles todos os dias: "se brigar na rua e apanhar, chegando aqui apanha de novo".

Quando completei sete anos, idade de ir para a escola (as crianças, agora, segundo os modernos métodos educacionais que, nem por isso, fornecem mais gênios que antigamente, desde os 2 ou 3 são logo atormentadas pela brutalidade do mundo), Ruy me chamou à porta e me disse: "Olhe, se quiserem pegar na sua bunda, meta o braço". E lá fui eu, de tamborete, lápis, caderno, uma Carta de ABC e o conselho do meu irmão. No intervalo, lasquei a cabeça dum cara que me alisou as pernas. Foi a minha vacina. Acho que se não fossem essas circunstâncias eu teria sido violentado mesmo e, quem sabe, teria perdido o maravilhoso mundo da mulher.

PE-AZ - E quando você conheceu esse maravilhoso mundo da mulher?

HBF - Aprendi a conhecer bem cedo, apalpando minhas companheiras de jogos e, logo aos 13 anos, era desvirginado por Maria-dos-Cachorros, uma excelente prostituta do Alto do Lenhador, em Palmares, que recebia os homens pela porta da frente e os meninos pela de detrás. Fiz tudo para apanhar uma blenorragia - sinal de masculinidade - mas não consegui. Consegui uns chatos, mas isso não era bastante para me impor diante dos meus companheiros, já que era conhecido como emérito bronhista: cheguei ao recorde de seis punhetas por dia, durante uma semana. Mas, aos poucos fui me impondo, mesmo sem as moléstias venéreas, desbanderei, só pensava em xoxota, vi-as em todos os cantos, tornei-me, na cidade de Palmares, entre as famílias sagradas, sinônimo de depravado, o que me custou muita cara torcida, mas por outro lado muita curiosidade compensadora, já que certas senhoras queriam saber como na realidade eu era.

PE-AZ - E depois dessas primeiras experiências?

HBF - Bom, depois, pela vida afora, o sexo se foi esclarecendo para mim, através das mulheres que amei, da luta contra o falso maralismo, do falso conceito de encontrar sempre pornografia no sexo. Hoje sou um monógomo, não por comodismo, mas por amor. Sou daqueles que acham (será o peso da idade?) que sexo e amor se completam, mas durante bastante tempo vi que se podia praticar sexo sem amor.

PE-AZ - A prostituição é necessária?

HBF - Para mim, foi. Mas há várias formas de prostituição: a artística, a política, a econômica, a agrária, a cultural, onde quer que esteja o homem aí está a prostituição. Mas estamos falando da sexual e esta, segundo parece, vai se desmilinguindo aos poucos.

PE-AZ - Você tem preconceito de cor, se casaria com uma negra?

HBF - Sexualmente, fui iniciado por uma negra e delas me lembro como boas mulheres, boas em todo o sentido erótico. Herança, com toda a certeza, do Capitão Hermilo, de quem não herdei somente o nome, um ex-senhor de engenho da primeira decadência, cujas amantes negras lhe deram muitos prazeres e muitas dores de cabeça a sua mulher, minha mãe. Há poucos dias, numa entrevista concedida para uma importante revista brasileira, ao se falar da mulher pernambucana, reclamei atenção do entrevistador para as descendentes de africanas. Como fugir da dureza da sua carne, das suas ventas acesas, da graça do seu andar, do bodum?

PE-AZ - E a presença do sexo no seu romance?

HBF - As criaturas dos meus romances copulam tanto quanto qualquer criatura de carne e osso, tanto quanto se come, se bebe, se dorme. Os mais requintados, os mais poetas, inventam coisas. Mas o exemplo já vem da Bíblia e as posições foram codificadas por Aretino, esgotaram-se, não passam de trinta e poucas, mas que prazer nos causam! Hipócrita será quem torcer a cara para o sexo e execrado aquele que começar a descobrir "anormalidades" nesse terreno. Essa questão de moral sexual é tremendamente relativa, variando de povo a povo e até mesmo de indivíduo a indivíduo. Então, quando se encontram dois indivíduos de gostos semelhantes (podem ser homem e mulher, homem e homem, mulher e mulher), onde está a anormalidade? E quem não é anormal? Conheço acadêmicos, intelectuais sisudos, profissionais liberais, comerciantes, banqueiros, industriais que, na intimidade, não têm outra conversa. Tudo gira em torno do sexo. Dizem as palavras mais cabeludas que se possa imaginar. É a tal coisa: as palavras podem ser ditas mais não podem ser escritas.

PE-AZ - E essa história do escritor maldito? É por conta do sexo nos seus livros?

HBF - Esse rótulo de "maldito" me foi imposto por certos críticos brasileiros. O público não me considera maldito, ao contrário, já que todos os meus romances estão esgotados, em vésperas de novas edições, e afinal de contas, maldito por quê? Porque dou ênfase ao sexo como força dominante no homem? Porque saliento a importância da liberdade, bem maior? Porque disseco o caráter do homem? Se isto é ser maldito, então, afinal de contas, malditos são todos aqueles que se preocupam com as dores e as angústias do homem. Talvez sejamos todos.

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